A que viemos?

Viemos para soltar a língua e dar asas à imaginação: dane-se o leitor!

sábado, 22 de maio de 2010

Você me ama como eu te amo?

– Você me ama?

– Amo.

– E por que você não diz?

– Digo.

– Então diz.

– Eu te amo.

– Mas só quando peço!

– Mas digo.

– Por que não diz espontaneamente?

– Eu te amo.

– Ama mesmo? AMA? ama? ama? ama...? ama! aaaama?

– Amo.

– Por que você me ama?

– Amo... porque amo.

– Mesmo?

– Mesmo.

– Ama de paixão?

– De paixão...

– E por que não diz?

– Eu digo: amo de paixão.

– Sem exclamação?

– Com exclamação: amo de paixão!

– Sem reticências, em caixa alta?

– AMO DE PAIXÃO!

– E por que não diz?

– Eu digo.

– Diz.

– E você, me ama?

– Amo.

– E por que você não diz?

– Digo.

– Então diz.

– TE AMO DE PAIXÃO! sem reticências, com exclamação e em caixa alta.

– Eu também te amo.

Roque Tadeu Gui

terça-feira, 11 de maio de 2010

J de jorro ou ejaculação precoce

O astuto do meu professor de línguas sempre fora um provocador. Bem verdade que deu resultado seu jeito habilidoso com que me convencia a passar meus fins de semana atônita entre livros esparramados pelo quarto espremendo meu cérebro esperando brotar alguns versos supostamente inteligentes. Jeremias, o Jerê, era um sedutor-filho-da-puta. Eu não resistia. Talvez tenha sido sua volúpia a responsável por decidir ele dar aulas de línguas. Isto mesmo, línguas comuns, com minúscula, pois Jerê não tinha grande domínio da gramática das Maiúsculas, detestava eruditismo. Sua sofisticação estava no estilo aberto e contundente de sua fala escrita, em qualquer língua. Jerê era bom de prosa e fazia uso da língua como ninguém.

Eu suava frio quando Jerê sorria de lado, sabia que trazia no canto da boca uma daquelas tarefas que significaria todo meu fim de semana enfurnada no quarto. Tinha mania de sugerir palavras, somente uma palavra como tema de alguma redação seja lá na língua que fosse. Certa vez solicitou-me que escrevesse sobre a palavra beijo. Astuto, Jerê flagrou-me encabulada, desandou a contar certa história de beijos inusitados fisgada da literatura de Papette, enquanto caminhava em minha direção com olhar de vou-te-devorar-neste-instante. Sem defesa, feito uma presa imobilizada, abandonei-me em seus braços peludos. Nem respirei e me lascou um beijo-polvo, aquele capaz de engolir até o nariz, para minha felicidade. Depois de sugar meus lábios até ficarem roxos e mostrar porque entendia tanto de línguas, largou-me e disse que só a experiência pode inspirar o escritor.

Não bastou me arrebatar com sua jactância e o gosto que me deixou na boca, na semana seguinte meu professor desafiou-me com nova palavra: Escreva algo com a palavra jorro. Meu-deus! pensei eu. Talvez fosse o timbre da voz, o ritmo das frases bem elaboradas, o fato é que minha mente obscena não pensou em outra coisa. O jato forte de um líquido sobre o corpo foi a primeira definição de jorro que veio à cabeça. Pedi ajuda ao professor para decifrar os mistérios do Verbo. Jorro: jato forte, porção líquida que sai de uma vez; golfada; esguicho... emissão súbita e intensa de raios luminosos? Ei!!! Quem acendeu a luz?

Cláudia Carneiro

segunda-feira, 10 de maio de 2010

angina

a dor da falta

que você me faz:

coração apertado

domingo, 9 de maio de 2010

Necrológio de Teodoclus Miranda

Anunciem nas superquadras: Teodoclus Miranda morreu! Antes de tudo, meu amigo. Não digo que “foi” ou que “era”, mas apenas “meu amigo” porque ocupa um espaço em minha mente e em meu coração, assim como dos amigos eleitos, que ele teve muitos. Depois, notável psicanalista, amante da escrita – por isso mesmo, contista amador –, viveu uma vida de trabalho. Na verdade, não se sabe ao certo o que era trabalho e o que era invenção para Teo – assim o chamávamos, na intimidade que nos era permitida. Teo inventou de ser psicanalista, de brincar com a alma, sua e a dos outros, e foi bom em sua invenção, ajudando a muitos e a si mesmo. Morou em terras distantes – foi à Europa só para se apaixonar por uma inglesa, a adorável Helen: a paixão foi arrebatadora e dela nasceu o amado filho, Sinclair. Separado da mulher amada, Teo escolheu fincar raízes em Brasília, e foi assim que fecundou nossas vidas com sua presença bem humorada e, às vezes, nostálgica. Gostava de beber, mas não era um alcoólico: elegera o Borgonha como elixir para louvar à vida e, como ato ritual, bebia melhor com os amigos do que sozinho: precisava da audiência que ouvisse sobre suas andanças, as peripécias de sua paixão desregulada por Helen e o amor orgulhoso por seu filho. Gostava de mentir, mas suas mentiras eram literárias e surgiam a serviço do cultivo da alma; dizia que a imaginação era a lembrança da vocação para a liberdade que fora gravada por um Demiurgo na alma dos mortais. Teo era um poeta.

Deixa saudosos amigos, seu dois labradores – Igor e Tor –, Helen, o grande amor, e Sinclair, o venerado filho, que não puderam lhe dar o último adeus. Por testamento de amizade, fico com seus contos não publicados.

Roque Tadeu Gui

sábado, 8 de maio de 2010

Minimalismo

O glamour do encontro havia-me sido anunciado há tempos. A começar pelo local, a casa de um figuraço da cidade. Chegamos, pontualmente, Giba e eu. Sem problemas para estacionar sábado à noite, numa rua estreita, manobristas nos aguardavam e, o melhor, a despesa também correria por conta do anfitrião. Na entrada, um pórtico arquitetônico minimalista, o mordomo que mais parecia uma peça ornamental da mansão, nos recebeu perguntando: - Querem conhecer a casa? Sem entender e, até considerando a oferta desproposital, agradecemos e adentramos o palacete à procura dos demais convidados. Caminhamos, descemos a escadaria enquanto admirávamos o belíssimo e suntuoso piso de mármore de Carrara - o mesmo utilizado no Panteão da Roma Antiga lembrado por nós das nossas aulas de história. Inadvertidamente surpreendi-me com os pés metidos no espelho d’água que ladeava a piscina, confundindo-o com o brilhante piso. Quanta vergonha! Com os pés molhados, sem saber o que fazer, sentindo-me inadequada, ouvia a gargalhada de Giba que denunciava o acidente ali diante de todos. Ao longo da noite ouvimos comentários sobre a suntuosidade da construção, do cenário clean, da academia de ginástica, da lancha estacionada na beira do lugar, enfim, tudo aquilo que costumo sonhar enquanto folheio as revistas de arquitetura. Tudo isso foi me causando um misto de deslumbramento e espanto. Parecia-me faltar alguma coisa. Ah... As bugigangas! Aquelas que habitam o dia-a-dia de nossas moradas. Onde estariam os porta-retratos, bibelôs, lembranças de viagem, faturas de cartão de crédito, moedas, rolhas, contas de luz e telefone, bóias e espaguetes da piscina, enfim, tudo aquilo que entulha e ao mesmo tempo revela a vida ordinária de todos nós? Passou-me pela cabeça a possibilidade da existência de uma sala secreta, desconhecida dos moradores e oculta ao olhar dos visitantes, ainda que acompanhados pelo mordomo, na qual se esconderiam as alegrias e as tristezas da grande casa. O quarto da verdade.

Beth Mori

O bolo e a torta...

Afinal, qual é a diferença entre o bolo e a torta? Esta foi mais uma das perguntas ‘estranhas’ que João, jovem português recém chegado ao Brasil, faria à família brasileira. Sério, pergunto isso, pois fui à Torteria de Lorenzo para comer uma torta e só encontrei bolos. Torteria que vende bolos não é torteria é uma... Casa de bolos, oras! Uma torteria deveria vender torta. E o que vi ali: bolos de tudo que era tipo, sabor, cor, recheado, com cobertura, gelado e quente, doce e salgado, mas somente bolos! Como assim? Perguntaram quase todos os presentes atônitos diante de mais uma questão ‘portuguesa’ trazida por João. Então, lá só têm tortas, estes bolos recheados, falou mamãe. Mas, bolo recheado não é necessariamente torta, resmungou tia Laura. Pronto. Instaurada mais uma discussão sobre ‘o nada’, como dizia meu pai. A partir daí a conversa rolou prá lá de metro, como se costuma dizer em Minas Gerais. Bolos são pesados! Bolos não têm recheios. E se tiver recheio, deve ser bem fininho. A cobertura também. Se houver, é claro. Não pode ser grossa. Já as tortas, não! As massas são leves, tipo pão de ló, e o recheio e a cobertura são abundantes. As tortas têm aquele chantilly, e também tem frutas em caldas, como recheio e cobertura. Dependendo do freguês um pedaço é mais do que suficiente, pois costumam ser enjoativas. Uns até nem conseguem chegar a dar a última dentada. Deixam ali no prato para ir direto ao lixo. O bolo, não! Sempre se quer comer mais um pedaço. Todos querem repetir. Sou do time das tortas! Sou do time dos bolos, continuou o falatório, sem chegarmos a uma conclusão sobre a diferença entre o bolo e a torta. Até que berrou Cecília: Continuo chocada com a duração da discussão!!! Silêncio total. Fim da conversa? Mas, para dizer que não terminamos sem uma solução, um esclarecimento final sobre uma possível diferença entre o bolo e a torta, o garoto Samuel falou bem baixinho no meu ouvido: o bolo é masculino e a torta é feminina.

Beth Mori

C de corno

- E tem mais. Antes de desligar o telefone quero te dizer mais uma coisa: Você é um corno!
Silêncio...
- Alô! Alô! Você ainda está aí, está me ouvindo?
- Corno? Não entendi. Você disse... corno? C-O-R-N-O? Aqueles apêndices ósseos presentes na parte superior da cabeça de muitos ungulados? Nos bois, veados, cabras e antílopes?
- Corno, eu te chamei de CORNO, cara!
- Eu? Corno? Como esses animais eu também tenho cornos? Cornos como aspas, bingas, chavelhos, chifres, galhos, guampas, guampos, hastes? Comuns a certos processos ou estruturas cuneiformes?
- Vou repetir para não haver mais dúvidas: Corno, corno com C!
- Sim, sim, entendi, na música é usado como um artefato, um instrumento de sopro, cuja evolução resultou em corneta, trompa, clarim e trombone. Também usado como recipiente para beber água... E utilizado como amuleto para afugentar as forças malignas, constituído por cornos, sei. Na dermatologia é uma lesão da pele formada pelo espessamento de camadas córneas da epiderme e que se apresenta como saliência dura...
- Corno! Corno!
- ... Uma das circunvoluções do hipocampo, em forma de chifre de carneiro; cada uma das colunas posteriores da substância cinzenta da medula espinhal; as pequenas saliências do orifício terminal do canal do sacro?
- Corno! COOOOOORNO! Corno Manso! Gualhudo, chifrudo, cornudo, aspudo, cervo, chavelhudo, conformado, faz-de-conta, guampudo, mumu, binga, cabrão, cabrum!
- Ah!! Aquele que é traído pela mulher, cornaça, cornudo?! E quando me foi colocado este implante? Corno mesmo? De quem?
- Corno!

Beth Mori

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O´Cê, tudo de bom

Minhas palavras favoritas começam com a letra C. Pra Começar, Cachorro; Cachorro é tudo de bom, não acham? Tenho Cinco: Camila e Kevin, rottweillers; Lobo e Espora, cachorros de pastoreio australianos; e Pitoco, bassê, meu xodó absoluto. Tive outros dois Cachorros de meu primeiro Casamento, que hoje moram com minha irmã Cecília: Uma, uma linda boxer, um amor de pessoa; e Naomi, a fox paulistinha mais adorável do mundo, além de super inteligente – quando pequenina dormia Comigo na Cama. Ambas as Cadelas têm nomes de mulheres lindas que Cativaram seu público: Uma Thurman e Naomi Campbell. Cachorro é tudo de bom; se pudesse, tinha uns Cinquenta.
Outro ser indispensável em minha vida, cuja palavra por Coincidência ou não Começa com C, é o Cavalo. Já teve a oportunidade de galopar de braços abertos sentindo o vento-morno-de-um-dia-ensolarado? Pode haver sensação de liberdade maior do que galopar a Cavalo? Pra mim não. Agora, unir Cavalo com Cachoeira, Cavalgada, Camaradas, Caminho no Campo, Cheiro de Chuva, Chuvisco, arrematado por um delicioso Churrasco, também é tudo de bom. Gosto tanto que hoje moro com meus Cavalos, o Raio e a Ulalá do GTS – já foram comprados com estes nomes, Claro – e adivinha só, são da raça Campolina, o Cavalo de marcha Campeão brasileiro.
Porém, não só a Cachorros e Cavalos atribuo minha preferência pelas palavras iniciadas por C, há outras palavras que merecem nossa maior Consideração: Cama e Cadeira, por exemplo, para quando estamos Cansados; Caderno, Caneta e Computador, para nos Comunicarmos, com o mundo e com nós mesmos; Culinária, todo tipo de Comida preparada com Carne, Chuchu ou Chocolate são pratos Cheios; isso sem falar nos verbos – Cuidar, Cantar, Caprichar –, adjetivos – Carinhoso, Caloroso –, e Cia.
Conhecer O´Cê,
Conversar Contigo,
Caminhar de mãos dadas, com Calma,
Contemplar o Céu, a lua e as estrelas, em Conjunto,
Chamegar.
Você mexe com meu Corpo,
minha Cabeça e com meu Coração.
Faz Caracóis em meus Cabelos,
Me faz sentir Criança,
Cambaleando
a Cada novo Conhecer.
Até que um dia você me pede em Casamento!
Aí, quem Casa quer Casa.
Caminhando, Construímos um futuro:
Com Cimento,
barriga Cheia de Criança,
e Companheirismo.
Tudo de bom, Concorda?

Paula Vianna

O de Óleo-de-fígado-de-bacalhau

-- E se o pai não gostar?

-- Nem pensar. Vamos seguir nosso plano que tudo vai dar certo.

-- Mas se ele não gostar?...

-- Você deixa que eu falo, você apenas concorda comigo, precisa concordar, fica do meu lado, balança a cabeça para mostrar que pensa como eu, tá bom?

-- Tá.

-- Será amanhã cedo, à hora de sempre, pouco antes do café.

-- Eu sei.

-- Então, combinado.

O diálogo entre os dois meninos foi mais ou menos assim. O mais velho, com 5 anos, o mais novo com 4, Pedro e Paulo os seus nomes. Diante de uma situação calamitosa, insuportável de uns tempos para cá, ambos resolveram tomar uma atitude: não tomar mais a colherada do óleo-de-fígado-de-bacalhau que o pai teimava em administrar a cada manhã, sem folga nem mesmo aos domingos, dias santos ou feriados. Quando o pai abria o vidro da tisana, só com o cheiro, o estômago se contorcia na barriga; o gosto então, nem se fala: peixe, peixe podre, podre desde sempre, nasceu podre aquele peixe; e era preciso engolir, a simples ameaça de vômito bastava para provocar a ira do pai:

-- Engole isso, menino, não seja enjoado!

E os meninos ouviam naquele enfático enjoado um sinônimo de mariquinha, mulherzinha, que ainda não sabiam bem o significado de veadinho, apenas suspeitavam... E engoliam a beberagem, dia após dia, num incompreensível martírio. Tinham idade e entendimento suficientes--- eram inteligentes -- para perceber que o pai estava cheio de boas intenções, que desejava vê-los crescerem fortes e sadios, e que afinal tinham um bom pai, carinhoso, embora um tanto severo. Mas aquilo estava passando dos limites: uma verdadeira tortura, que ultimamente começava na véspera, quando iam para a cama:

-- Pedro, será que amanhã vai ter o xarope?

-- Vai, Paulo.

-- Pois eu não aguento mais.

-- Nem eu. Estou com vontade de vomitar desde já!

-- Tive uma ideia, Pedro: e se a gente vomitar?

-- Paulo, tenho nojo de vômito, vomitar não dá. Depois, e aquele gosto que fica na boca!

No dia seguinte, pela manhã, o ritual nunca falhava:

-- Pedro Paulo, hora do fortificante!

E os dois irmãos, resignadamente, caminhavam para o cadafalso, pálidos, gelados, quase verdes, os estômagos saindo pela boca. Espartana educação. O pai acreditava mesmo no poder da Emulsão Scott, tanto que chegou a mostrar aos filhos a bula do remédio:

EMULSÃO SCOTT é preparado emulsionado com óleo de fígado de bacalhau, que proporciona rápida e completa assimilação de vitaminas para a prevenção e tratamento das doenças resultantes de deficiências das vitaminas A e D. EMULSÃO SCOTT é facilmente assimilável, mesmo pelos organismos mais delicados.

Fórmula e composição - EMULSÃO SCOTT

Por colher de
 sobremesa (10 ml) de sopa (15 ml)


Óleo de fígado de bacalhau 0,588g 0,882g


Óleo de soja 2,060g 3.090g


Fosfato monossódico 0,022g 0,033g


Fosfato dicálcico 0,054g 0,081g


Hipofosfito de sódio 0,040g 0,060g


Óleos essenciais 0,014g 0,021 g


Veículos q.s.p. 10,000 ml 1 5,000 ml

Quando o pai leu organismos mais delicados, Pedro e Paulo tiveram certeza:

-- O pai acha que somos mariquinhas...

Até que um dia a coisa tornou-se mesmo insuportável. À noite, já deitados, Pedro apresentou seu plano infalível.

-- Paulo, tenho um plano.

(Agora, o leitor menos atento, se desejar, volta ao início da história e relê o diálogo entre os dois meninos, que antecede o epílogo desta história. “E se o pai não gostar?”, exclamou Paulo, o irmão mais novo.

Até que chegamos à manhã fatídica onde tiveram lugar os acontecimentos decisivos da nossa história.)

-- Pedro Paulo, hora do fortificante!

Seguiram-se intermináveis segundos de silêncio, após o que, Pedro, cheio-de-coragem-mas-nem-tanto, disparou:

-- Pai eu e o Paulo resolvemos que não vamos tomar mais esse negócio pai não aguentamos mais pai isso é ruim demais pai sentimos muita vontade de vomitar pai desde ontem à noite estamos com vontade de vomitar pai e resolvemos pai eu mais o Paulo pai não é Paulo? que não vamos mais tomar esse remédio pai porque isso é ruim demais pai não dá mesmo pai.

Findo o discurso do filho mais velho, o pai fechou em silêncio o vidro da Emulsão Scott -- óleo-de-fígado-de-bacalhau --, guardou o vidro em completo silêncio, e nunca mais se ouviu uma palavra sobre o assunto.

O pai então aprendeu, e Pedro e Paulo aprenderam a maior lição de suas vidas até então.

André Vianna

Réquiem

se ao menos neste domingo
eu tivesse obrigação
de ir à missa
mas nem isso:
pertenço à raça ruim
dos que não crêem
devo amargar, portanto
a minha solidão
pagar meus pecados
por aqui mesmo
junto a meus cães
chorar com o vento triste da manhã
no silêncio deste jardim triste
tendo como único consolo
que já não troco
minhas verdades
por uma ilusão qualquer

André Vianna